
Foto de Germano Schüur
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Publicação: 11/09/2007
Atualização: 11/09/2007
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Uma "casa que não tem flor não tem alegria", diz um ditado alemão que, em Nova Petrópolis, foi levado à risca, em todas as cores. Conhecida como "cidade das azaléias", planta típica do inverno e plantada ali com as mais diversas tonalidades, a cidade também se destaca no verão pelo azul das hortênsias. Fica repleta de flores da estação, dos parques aos quintais das casas e jardim dos edifícios. Há todo um trabalho para o embelezamento da cidade. O povo se educou para não destruir as flores, o que destaca uma particularidade do município, encravado a meio caminho de duas importantes regiões industriais, o Vale do Sinos e Caxias do Sul: Nova Petrópolis procurou tornar-se uma cidade diferente. Ali não há problemas sérios de desemprego e nem analfabetos. Nem pessoas muito pobres e nem muito ricas. E se teve por objetivo construir uma cidade para os novapetropolitanos e para os turistas. Por isso, não há o objetivo de tornar-se uma grande cidade - a idéia é que, no ano 2050, não se tenha mais do que 40 mil habitantes. Muito limpa, seja na sede do município ou em qualquer picada e linha de seu interior, Nova Petrópolis tem o que seus historiadores definem como "espírito do trabalho". Num ponto privilegiado da Serra, entre os Vales do Caí e do Cadeia, a cidade seguramente é uma das mais alemãs do Estado. Isolada durante muito tempo, teve preservada não só a cultura dos primeiros imigrantes como, a partir das características locais, também desenvolveu uma cultura regional típica. Os mesmos alemães que trouxeram a gaita para o folclore gaúcho, aceitaram o chimarrão como o hábito do dia-a-dia, e nas grandes festas preferem o churrasco, por ser mais fácil de preparar. O município chegou aos tempos atuais com pelo menos 95% de sua população formada por descendentes de alemães. Ali se falam os dialetos boêmio, pomerano, hunsrück (do Vale do Reno) e o saxão, do que resultou um outro dialeto utilizando algumas palavras em português. Não há uma repartição, loja ou, mesmo, banco, onde não se fale ou não se entenda o alemão. A maior parte das pessoas fala, porque é a língua que se utiliza em casa e na qual se fecha boa parte dos negócios. Como normalmente os casamentos são feitos dentro da própria etnia, isto tem preservado não só o alemão e os dialetos, como muitos dos costumes. Querendo evitar que a perda da língua e o abandono das antigas tradições se torne a regra, a prefeitura local tem estimulado a preservação da cultura, procurando recuperar danças e cantos que tenham sido perdidos ou corram o risco de ser esquecidos. Do que se conseguiu preservar, há, inclusive, um canto muito curioso que tem atravessado a história e já cruzou um século: "Napoleão, oh aprendiz de sapateiro Tu não estás muito firme no teu trono Pois na Alemanha tu quiseste ser tão severo E na Rússia receberás o teu pagamento Ah se tivesses feito a aliança com a Alemanha E tivesses deixado em paz a Rússia Hoje teríamos o mais belo dos tronos". Cantada nas mesas de bares ou nas confraternizações em casa, essa é uma espécie de música para a hora da cerveja. A ironia, porém, tem suas fortes razões: os alemães, transmitindo suas agruras de geração em geração, procuram lembrar o que sofreram com Napoleão. Na própria região os antepassados dos atuais moradores também enfrentaram alguns problemas. Primeiro eram os imigrantes norte-americanos que mais faziam arruaças do que trabalhavam, dizem os arquivos históricos. Depois, durante a Revolução Federalista, os maragatos desciam dos Campos de Cima da Serra para saquear as colônias, roubar os animais e aterrorizar a população. Para enfrentá-los, as sociedades de atiradores (uma tradição que os alemães trazem desde a Idade Média) transformaram-se em organizações paramilitares com um comando central que espalhou vigias por todas as estradas que pudessem ser utilizadas pelos maragatos. Com a pacificação da colônia, as sociedades de atiradores voltaram às suas antigas finalidades, girando, em torno delas e das sociedades de canto, todo o lazer dos colonos e dos próprios moradores de Nova Petrópolis. A quase totalidade da população é associada das sociedades de canto, e a maior parte das pessoas chega a ser associada a mais de uma. O pagamento, que é feito anualmente, é simbólico. Além de acesso gratuito aos bailes que são promovidos com frequência, os sócios têm um privilégio: quando morrem, os corais das sociedades vão homenageá-los na hora do enterro. Em alguns enterros chegam a haver três ou quatro corais. Se gostam de cantar, os alemães também gostam de atirar. Mas praticam apenas o tiro ao alvo. Existem inúmeros torneios, mas a festa principal, uma vez por ano (que na cidade de Nova Petrópolis ocorre no primeiro domingo de outubro), é a do Tiro Rei. O atirador que der o melhor tiro no alvo, disposto a 150 metros, é o rei, também se escolhendo atualmente dois condes, um príncipe e a rainha. No sábado seguinte o rei e seu séquito, acompanhados de atiradores e conjuntos folclóricos, fazem um cortejo pela cidade, ao som de bandinhas e muita festa, até serem recepcionados na sociedade, onde se faz a coroação. A principal festa da colônia, entretanto, é o kerb, no dia do aniversário da consagração da igreja, seja ela católica ou luterana. As festividades começam com um culto ou missa (a população se divide quase igualmente entre as duas linhas religiosas) e depois as famílias recebem amigos e visitantes em suas casas, realizando-se mais tarde um baile típico. Antigamente, a festa durava três dias, mas no momento resume-se a apenas um, pois muitas pessoas já trabalham em indústrias e não poderiam comparecer. Nas casas, seja nos núcleos urbanos ou nas moradias que cortam a monotonia das lavouras existentes nos bonitos vales da região, predomina a arquitetura rústica dos Alpes. Ainda se vêem muitas casas em enxaimel, normalmente com um pavimento e um sótão, onde a característica marcante, além do telhado com folhas de zinco, são os barrotes de madeira em diagonal, em todas as paredes. Nos espaços entre um barrote e outro, colocava-se pedras e barro. Ultimamente, principalmente em Nova Petrópolis, têm sido feitas muitas construções em enxaimel, mas, é claro, sem o barro. Usa-se o tijolo e até já se fazem prédios, mantendo o estilo. A reprodução de uma aldeia típica do período de 1880 a 1910 foi feita no Parque Aldeia do Imigrante, para onde foram transpostas uma igreja (utilizada ecumenicamente) e diversas casas. Um casal, com muitos animais e entre eles um pavão, mora no local para tornar-se a "aldeia" um museu vivo dos primeiros tempos da imigração.
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