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Costumes e hábitos da fronteira

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Page Views: 1534
Publicação: 08/09/2007


 No Rio Grande do Sul não existe uma cidade que possa ser considerada espanhola. Nem mesmo um bairro. E, se houver, serão poucas as famílias que, em casa, somente falam espanhol. Ao contrário dos esforços feitos em outras etnias, não existe um trabalho de recuperação e preservação das velhas tradições, procurando mantê-las vivas no dia-a-dia das pessoas.
 
 Para um estado que, no passado, teve suas terras pertencentes à Coroa da Espanha, restou, portanto, muito pouca coisa intacta. Mas muita coisa, da indumentária às formas de expressão que ainda prevalecem na fronteira, permaneceu com alterações - mesclada com os costumes dos portugueses que avançaram "a ferro e fogo" para o sul, essa cultura espanhola resultou em algo novo: no homem gaúcho, com uma cultura própria.
 
 O gaúcho, segundo historiadores da fronteira, "é mais espanhol que português". Em Santa Vitória do Palmar, por exemplo, alguns termos e formas de expressão deixam isso muito claro. Situada nos antigos Campos Neutrais (que não pertenceriam nem a Portugal e nem à Espanha) estabelecidos pelo Tratado de Santo Ildefonso, de 1777, Santa Vitória não conhece o pássaro joão-de-barro por esse nome mas como ornero. O pardal é corrião. E não se diz "não o viste", mas não lo viste.
 
 Algo semelhante acontece em Livramento, como, de resto, em toda a fronteira com o Uruguai. Ali, quando se vai a uma loja comprar um ferro elétrico pede-se uma plancha. Esse verdadeiro dialeto da fronteira é tão forte, que as pessoas, mesmo que se policiem, acabam utilizando termos regionais em sua comunicação habitual. Mas, é claro, isso não se trata de espanhol.
 
 O que é uma autêntica tradição espanhola é o velho costume que vem se mantendo no tempo, de empinar pandorgas (papagaios) na sexta-feira santa. As pessoas saem cedo de casa, com um farnel na mão e a pandorga pendurada nas costas, e seguem para os cerros da região, longe dos fios que fazem a transmissão de energia, para dedicar-se ao esporte.
 
 Trata-se de um costume muito antigo. A prova de que se trata de uma tradição espanhola foi obtida em Valencia, na Espanha, graças a pesquisa de historiadores da região, segundo a qual o costume foi levado a Livramento pelos espanhóis que chegaram à cidade através do porto de Montevidéu em algum momento do século passado.
 
 Como em território uruguaio a ferrovia ia até Rivera (onde foi inaugurada em 1892), espanhóis e italianos chegavam em grandes levas ao Brasil por esse caminho. Quando D. Pedro II visitou Livramento em 1865, o Conde D'Eu registrou em diário que "de duas mil almas, o elemento brasileiro não representa metade". Dentre os europeus, informou ele, predominavam os italianos. Os próprios registros da Associação Comercial da cidade indicam que, no final do século passado, a maior parte dos comerciantes locais era composta por espanhóis e italianos.


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